O que quer dizer "ónus da prova" e porque conta numa conversa
Quem afirma algo deve apresentar razões. Explicamos em palavras simples o ónus da prova, com exemplos do dia a dia e um exercício curto para praticar em casa.
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Uma expressão antiga, uma ideia simples
Nas aulas de argumentação, há uma expressão que aparece cedo e que toda a gente já ouviu sem saber bem o que significa: o ónus da prova. Quer dizer, em poucas palavras, que cabe a quem afirma alguma coisa mostrar porque é que ela é verdadeira. Não cabe ao outro provar que está errado.
Sou formador de escuta ativa e costumo trazer esta regra para a sala por um motivo prático. Muitas discussões azedam porque cada pessoa espera que seja a outra a justificar-se. Quando se percebe quem tem de apresentar razões, a conversa abranda e ganha direção.
A regra vem do vocabulário dos tribunais, mas não precisa de nada de solene para funcionar. Aplica-se à mesa do café, numa reunião de condomínio ou numa conversa de família sobre o preço das coisas.
Como a regra aparece no quotidiano
Imagine que um vizinho diz, no átrio do prédio, que a nova empresa de limpeza trabalha pior do que a anterior. Se o dizem com convicção, parece que fica tudo dito. Mas quem fez a afirmação é que deve explicar em que se baseia: viu escadas por lavar, recebeu queixas, comparou semanas?
Se, em vez disso, o outro vizinho responder apenas "prove que não é verdade", a conversa fica a andar em círculos. Ninguém consegue provar facilmente que algo não aconteceu. A pergunta mais útil e mais calma é outra: "O que o leva a pensar isso?"
Esta pergunta não ataca ninguém. Convida a pessoa a mostrar o seu caminho, e muitas vezes ela própria repara que tinha menos razões do que julgava, ou que tem mesmo boas razões que vale a pena ouvir.
- Quem afirma, explica.
- Quem duvida, pergunta.
- Pedir razões não é desconfiar da pessoa.
Opinião, facto e o que fica no meio
No módulo Argumentação e provas, trabalhamos a diferença entre opinião e facto. Uma opinião diz o que alguém pensa ou prefere. Um facto pode ser verificado por outra pessoa, seguindo o mesmo caminho. "Aquela rua é bonita" é opinião. "Aquela rua tem sentido único desde o ano passado" é algo que se confirma.
O ónus da prova pesa sobretudo sobre as afirmações que se apresentam como factos. Ninguém tem de justificar que gosta mais de bacalhau do que de polvo. Mas quem diz que um produto é mais seguro ou que um caminho é mais rápido deve poder indicar de onde vem essa informação.
Há ainda uma zona intermédia, a das opiniões fundamentadas. Aqui a pessoa dá a sua perspetiva e junta razões e exemplos. É a zona onde a maior parte das boas conversas acontece, e é a que treinamos mais.
Um erro comum: inverter o peso
Há uma forma muito habitual de fugir à regra: passar a tarefa para o outro lado. Alguém diz "as pessoas hoje já não se respeitam" e, quando lhe perguntam porquê, responde "então diga-me que isso não é verdade". A afirmação ficou intacta e o trabalho mudou de mãos.
Reconhecer esta inversão ajuda muito. Não é preciso ser seco nem dar lições. Basta dizer, com simpatia, que gostaria de perceber melhor o que a pessoa viu ou leu, e que a partir daí poderão pensar juntos.
Convém também aplicar a regra a nós próprios. Quando sentimos vontade de afirmar algo com muita força, vale a pena parar um instante e perguntar: eu saberia explicar a um amigo como cheguei a esta ideia? Se a resposta for hesitante, é sinal de que falta uma razão ou um exemplo.
- Desconfie de "prove que não é".
- Reformule: "Em que se baseia?"
- Aplique a mesma pergunta a si.
Quanta prova é suficiente?
Nem todas as afirmações pedem o mesmo esforço. Se alguém diz que choveu ontem à tarde, basta a memória de quem lá esteve. Se alguém diz que um tratamento resolve um problema de saúde, é razoável pedir bastante mais. Quanto maior a afirmação, mais sólida deve ser a sustentação.
Na prática, ajuda pensar em três níveis: um exemplo isolado, vários exemplos concordantes e uma fonte que outra pessoa possa consultar. Um único caso vale como ilustração, mas dificilmente como prova de uma regra geral.
Também conta a honestidade sobre os limites. Dizer "tanto quanto sei" ou "pelo que vi até agora" não enfraquece o argumento. Mostra que a pessoa sabe até onde chega a sua prova, e isso costuma aumentar a confiança de quem ouve.
Exercício para fazer em casa
Escolha uma afirmação que ouviu esta semana, na rua, em casa ou na televisão. Escreva-a numa folha. Por baixo, anote duas coisas: quem a fez e que razões foram dadas, se alguma. Se não houve nenhuma, escreva apenas "nenhuma", sem juízos.
Depois, formule uma pergunta curta e amável que pediria razões, por exemplo "Como é que chegou a essa conclusão?". Ensaie-a em voz alta duas ou três vezes, até soar natural e sem tom de desafio.
Por fim, aplique o mesmo método a uma afirmação sua. Escreva duas razões que a apoiam e um exemplo concreto. Se tiver dificuldade, não desanime: é precisamente esse o ponto de partida do trabalho que fazemos em grupo, com calma e sem pressas.
- Uma afirmação, uma folha.
- Quem disse, que razões deu.
- Uma pergunta pronta para treinar.
O ónus da prova é uma regra de cortesia tanto quanto de lógica: quem afirma, explica; quem duvida, pergunta sem atacar. Com esta ideia simples, as conversas ficam mais claras e menos cansativas. Experimente durante estas semanas de outono, uma pergunta de cada vez, e repare como o ritmo das discussões muda quando ambas as partes mostram os seus caminhos.
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