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Erros de raciocínio

Nos bastidores de uma aula sobre erros de raciocínio

Como preparo, na prática, uma sessão sobre argumentos fracos e manipulação: de onde vêm os exemplos, como se ensaiam em grupo e o que fica de fora da aula.

Teresa Barreto

5 minutos de leitura

Nos bastidores de uma aula sobre erros de raciocínio

Onde começa a preparação

Uma aula sobre erros de raciocínio não nasce de uma lista de nomes difíceis. Começa, nas primeiras semanas de outono, com uma pasta onde vou guardando frases ouvidas no quotidiano: uma conversa de café, um anúncio de rua, um título de jornal, uma mensagem reencaminhada em grupo de família. Cada recorte vale pelo que mostra, não pela origem. Depois leio tudo com uma pergunta simples: o que está aqui a ser afirmado e que razões são dadas? Muitas vezes a resposta é que a afirmação é clara e as razões são poucas. É esse intervalo que quero que os participantes aprendam a ver, sem pressa e sem desconfiar de tudo.

Escolho poucos exemplos por sessão, quatro ou cinco no máximo. Prefiro que cada um seja discutido durante dez minutos a que passem vinte pela mesa sem deixar marca. Os adultos que frequentam o programa trazem uma vida inteira de experiência, e essa experiência é o melhor material de trabalho que tenho.

Escolher exemplos que não magoem

O cuidado mais importante é a escolha do tema dos exemplos. Evito assuntos que dividam o grupo por convicções profundas, porque o objetivo é treinar o olhar sobre a forma do argumento, não discutir quem tem razão no fundo. Uso por isso situações neutras: o preço de um eletrodoméstico, uma promoção, um conselho sobre jardinagem, uma opinião sobre o trânsito da cidade.

Quando um exemplo toca demasiado perto de alguém, retiro-o. Já aconteceu a meio de uma preparação perceber que uma frase podia ser lida como crítica a uma profissão presente na sala. Reescrevo, mudo o contexto e mantenho a estrutura do erro. A lição continua a funcionar e ninguém se sente exposto.

Como se ensaia em grupo

Na sala, a parte central é um exercício em pequenos grupos. Cada grupo recebe um texto curto e três perguntas: qual é a conclusão, quais são as razões e que razão falta. Não pedimos que deem nome ao erro. Pedimos que o descrevam por palavras suas, e só no fim associo a esse relato o termo habitual.

Esta ordem importa. Quem descobre sozinho que um argumento salta de um caso isolado para uma regra geral lembra-se muito melhor do que quem decorou o rótulo. Circulo entre as mesas, oiço, e anoto as formulações mais felizes para devolver ao grupo inteiro. Muitas vezes são melhores do que as minhas.

  • Um texto curto por grupo
  • Três perguntas fixas sobre conclusão e razões
  • Descrição com palavras próprias antes do termo técnico

Publicidade e notícias: o que se treina

Reservo sempre um bloco para a publicidade, porque é um terreno seguro para praticar. Um anúncio raramente mente de forma direta; costuma sugerir. Pergunto ao grupo o que ficou sugerido, o que foi realmente dito e o que ninguém provou. A diferença entre essas três coisas é muitas vezes o ponto da aula.

Com as notícias faço algo semelhante, mas com cuidado redobrado. Trabalhamos títulos e pequenos parágrafos, nunca temas de atualidade quente. Interessa ver como uma palavra escolhida com intenção, como sempre ou ninguém, empurra a leitura. Ao fim de algumas sessões, vários participantes contam que passaram a reparar nestas palavras sem as procurar.

O que fica de fora da aula

Há coisas que não prometo nem ensino. Não ensino a vencer discussões, nem a apontar o dedo ao outro com um nome latino. Um erro de raciocínio identificado deve levar a uma pergunta calma, não a um golpe de retórica. Se alguém sai da sala a corrigir o cunhado ao jantar, falhei em parte. Também não ofereço certezas sobre manipulação. Ensino sinais frequentes: pressão de tempo, apelo ao medo, falsa escolha entre duas opções. Mas lembro que ter um sinal não prova má intenção; pode ser apenas pressa ou hábito de quem fala. Distinguir as duas coisas exige ouvir mais e concluir menos.

No fim de cada sessão peço uma tarefa pequena para a semana: apanhar um argumento do dia a dia, anotá-lo e trazê-lo na aula seguinte. Não há nota nem avaliação, apenas a curiosidade de ver o que cada pessoa encontrou.

Ajustes depois de cada turma

Depois de cada sessão, escrevo meia página sobre o que funcionou e o que não funcionou. Um exemplo que gerou silêncio é substituído. Uma explicação que precisei de repetir três vezes é reformulada. Há exercícios que mudaram bastante desde o início do programa por causa destas notas.

Gosto de conversar também com os colegas formadores sobre o que ouvem nos seus módulos, porque a escuta e as conversas difíceis tocam muitas vezes nos mesmos tropeços de raciocínio. Esse intercâmbio, simples e regular, é a parte do trabalho que menos se vê e que mais melhora as aulas.

Ensinar a reconhecer argumentos fracos é, na prática, um trabalho de paciência: escolher bem os exemplos, deixar o grupo descobrir, nomear só no fim e ajustar a cada turma. O resultado realista não é ficar imune a todo o engano, mas pensar um pouco mais antes de concordar ou discordar, e fazê-lo com serenidade.

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