Lista para consultar antes de decidir se um argumento merece confiança
Uma lista prática de perguntas a fazer perante uma afirmação convincente, numa conversa, numa notícia ou num anúncio, antes de a aceitar ou de lhe responder.
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Porque convém parar antes de decidir
Nas últimas semanas, com o outono a trazer as conversas de família de volta à mesa e as campanhas de fim de ano aos ecrãs, tenho reparado num hábito comum entre os alunos: decidem se concordam com uma frase quase de imediato, pelo tom de quem a diz. Faz parte de ser humano, mas custa caro quando a frase estava mal construída.
Esta lista nasceu dos exercícios que fazemos nas aulas de Erros de raciocínio, onde aprendemos a reconhecer argumentos fracos e formas comuns de manipulação. Não pretende transformar ninguém num inspetor desconfiado. Serve para ganhar alguns segundos de reflexão, o suficiente para perceber se aquilo que ouvimos sustenta mesmo a conclusão que nos propõem.
Pode imprimi-la, dobrá-la e guardá-la na carteira. Percorra as perguntas por ordem, sem pressa, e responda a cada uma com sinceridade. Se a meio já tiver dúvidas, já fez o essencial: não precisa de decidir nesse instante.
Primeiro: o que é, exatamente, que me estão a pedir?
Muitos argumentos fracos escondem a sua conclusão. Falam durante um minuto sobre medo, saudade ou orgulho, e só no fim surge o pedido: comprar, votar, partilhar, mudar de opinião. Antes de avaliar as razões, tente dizer numa frase simples qual é a conclusão. Se não conseguir, o problema pode estar em quem fala e não em si.
Em seguida, separe a conclusão do tema. Alguém pode ter toda a razão ao dizer que os preços subiram e, ainda assim, não ter provado que a solução proposta resolve o assunto. Os dois passos são afirmações diferentes e cada uma precisa da sua própria razão.
Quando tiver a conclusão clara, escreva-a, mesmo que seja numa margem de jornal. O simples gesto de a pôr no papel torna mais fácil ver se as razões apresentadas lhe chegam ou se estão a apontar para outro lado.
- Qual é a conclusão, dita numa só frase?
- Estão a pedir-me uma ação ou apenas uma opinião?
- A conclusão é a mesma do tema de que se começou a falar?
Segundo: que razões e que provas foram dadas
Uma razão é uma frase que apoia a conclusão. Uma prova é aquilo que permite confirmar a razão. Muitas vezes ouvimos opiniões vestidas de factos: toda a gente sabe que, está provado que, os especialistas dizem. Pergunte quem, onde e como se sabe. Se a resposta for vaga, trate a frase como opinião, por muito segura que soe.
Repare também no tipo de exemplo usado. Um caso isolado pode ilustrar uma ideia, mas não a demonstra. Se alguém conta que o vizinho melhorou com determinado método, isso é uma história simpática, não uma regra. Pergunte-se se o exemplo é típico ou se foi escolhido por ser o mais favorável.
Por fim, veja o que falta. Um anúncio que mostra apenas o antes e o depois não diz o que aconteceu entre os dois momentos. Uma notícia com um número sem comparação não permite saber se é muito ou pouco. A ausência de um dado essencial é, por si só, informação.
- Quem afirma isto e como pode saber?
- É um facto que se pode confirmar ou uma opinião?
- O exemplo é típico ou foi escolhido por conveniência?
- Que dado importante não foi mencionado?
Terceiro: sinais de que o raciocínio escorrega
Há formas de raciocínio fraco tão frequentes que merecem ser reconhecidas à primeira vista. Uma é atacar a pessoa em vez da ideia: se alguém diz que não se pode confiar no que dizem porque é velho, novo ou tem um mau feitio, ainda nada foi dito sobre o assunto em si. Outra é o falso dilema, quando só nos oferecem duas saídas, como se não existisse mais nenhuma.
Atenção também à pressão da maioria e à pressão do tempo. Frases como toda a gente já aderiu ou só até ao fim da semana procuram fazer-nos agir antes de pensar. Uma boa razão continua a ser boa amanhã. Se a decisão não aguenta uma noite de reflexão, vale a pena perguntar porquê.
Outro sinal é a escada de consequências: se aceitarmos isto, vem aquilo, e depois pior ainda, sem que cada degrau tenha sido justificado. Examine cada passo separadamente. Normalmente, o desastre anunciado no fim depende de saltos que ninguém demonstrou.
- Estão a falar da pessoa ou da ideia?
- Só me dão duas hipóteses quando poderia haver outras?
- Há pressa ou pressão de grupo a substituir razões?
- Cada passo de uma sequência de consequências está justificado?
Quarto: o que sinto e o que isso me diz
Nenhuma lista dispensa a pergunta mais difícil: como me sinto perante esta afirmação? Quando uma frase nos irrita ou nos lisonjeia demasiado depressa, é útil desconfiar da nossa própria reação. Muitas formas de manipulação funcionam porque apelam ao medo, à vaidade ou à nostalgia, e depois deixam-nos a procurar razões para justificar o que já decidimos sentir.
Experimente um pequeno exercício: pergunte a si próprio o que teria de ouvir para mudar de opinião. Se a resposta for nada, então não está a avaliar um argumento, está a defender uma posição. Não há mal nisso, desde que seja uma escolha consciente e não um engano.
E tenha o mesmo cuidado com as suas próprias intervenções. Antes de responder a alguém, confirme se percebeu o que foi dito. Resumir a ideia do outro e perguntar se a entendeu bem é uma das maneiras mais eficazes de evitar discussões inúteis e de dar ao interlocutor a oportunidade de corrigir um mal-entendido.
- A frase tenta provocar-me medo, orgulho ou pena?
- O que teria de ouvir para mudar de opinião?
- Compreendi mesmo o que o outro quis dizer?
Quinto: como usar a lista no dia a dia
Não é preciso percorrer todas as perguntas em cada conversa. Comece por duas: qual é a conclusão e que prova me foi dada. Com o tempo, as restantes passam a surgir sozinhas. Treine primeiro com material de baixo risco, como um anúncio de revista, um título de jornal ou uma mensagem reencaminhada, antes de a aplicar a debates mais pessoais.
Se estiver numa conversa em que a emoção é grande, pode simplesmente pedir um momento. Dizer deixe-me pensar nisso é perfeitamente aceitável e quase nunca ofende ninguém. Muitas vezes o outro agradece, porque também ele precisava de abrandar.
Nos módulos de Erros de raciocínio, trabalhamos estes pontos com exemplos retirados de conversas, notícias e publicidade, em grupos pequenos e sem exames. Não são necessários conhecimentos prévios, apenas vontade de olhar duas vezes para aquilo que parece evidente.
Decidir bem não exige desconfiar de tudo, exige parar o tempo suficiente para perceber o que nos estão a pedir e com que razões. Percorra a lista com calma, comece por poucas perguntas e pratique em situações simples. Com o hábito, notará que as conversas ficam mais serenas, as decisões mais suas e os argumentos fracos, os de outros e os seus, mais fáceis de reconhecer a tempo.
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