Como preparamos um exercício de escuta em pares, passo a passo
Nos bastidores das aulas de escuta ativa: como escolhemos os temas, formamos os pares e conduzimos o exercício de resumir, perguntar e ouvir sem interromper.
4 minutos de leitura
Começa antes da aula, com um tema pequeno
Quando preparo uma sessão de escuta ativa, a primeira decisão é o tema que os pares vão conversar. Procuro assuntos pequenos e quotidianos: a primeira vez que fizeram uma viagem, uma tarefa que gostavam de ter aprendido mais cedo, um hábito da vossa rua que mudou. Evito temas que mexam com feridas ou que dividam logo a sala, porque o objetivo do exercício não é discutir quem tem razão, é treinar a atenção.
Escrevo cada tema num cartão, em letra grande, e deixo-o em cima das mesas antes de chegarem. Parece um pormenor, mas poupa o momento embaraçoso de ninguém saber por onde começar. Quem chega, olha para o cartão, senta-se e já tem uma pergunta de partida à frente.
Como formamos os pares
Os pares não são escolhidos ao acaso nem por afinidade. Se deixasse que cada pessoa se sentasse ao lado de quem já conhece, o exercício perderia a graça, porque os amigos completam as frases uns dos outros e deixam de treinar a escuta. Por isso troco os pares a cada ronda, de forma simples e visível, para que ninguém sinta que foi posto de parte.
Também tenho em conta o ritmo de cada pessoa. Quem fala depressa fica, por vezes, com alguém mais pausado, e ambos aprendem com a diferença. O Rui Almeida, que acompanha este módulo comigo, costuma observar os pares de longe e só intervém se perceber que alguém se está a sentir desconfortável ou a ocupar demasiado espaço.
As três regras que damos antes de começar
Antes de cada ronda repetimos três regras, sempre pela mesma ordem. Quem ouve não interrompe, mesmo que saiba o que o outro vai dizer. Quem ouve toma uma nota curta, se quiser, mas sem escrever frases inteiras. E quem ouve, no fim, resume por palavras suas o que percebeu, antes de dizer o que pensa.
Repetir as regras todas as vezes não é falta de confiança nos participantes. É o que acontece em qualquer treino: o gesto só fica quando se repete. Ao fim de duas ou três aulas, vejo que as pessoas já dizem as regras em voz baixa umas às outras, antes de eu as anunciar.
- Não interromper quem está a falar
- Tomar notas breves, sem escrever tudo
- Resumir antes de responder
O que acontece durante a ronda
Cada pessoa fala durante dois a três minutos. Parece pouco, mas quem está habituado a ser interrompido descobre que três minutos de atenção do outro são uma experiência diferente. Eu circulo pela sala, sem me aproximar demasiado, e registo mentalmente o que vejo: quem acena, quem olha para o relógio, quem já está a preparar a resposta em vez de ouvir.
Quando o tempo acaba, quem ouviu faz o resumo. É aqui que o exercício mostra o seu valor. Muitas vezes o resumo falha num ponto importante, e quem falou corrige com um sorriso. Ninguém é avaliado: o erro é a matéria de trabalho, e o par ajusta até o resumo ser aceite por quem falou.
A pergunta que vale mais do que a resposta
Depois do resumo, pedimos uma única pergunta. Não duas, não uma sequência. Uma pergunta honesta, que mostre curiosidade pelo que o outro disse e não uma opinião disfarçada de dúvida. Distinguimos, em conjunto, perguntas abertas, que convidam a explicar, de perguntas fechadas, que só pedem sim ou não.
Muitas pessoas descobrem que a sua pergunta habitual é, na verdade, uma crítica. Dizem-me, por exemplo, que perguntaram «Não achas que...?» quando queriam dizer «Discordo». Reformular em voz alta, diante do par, é um dos momentos mais úteis da aula, e quase sempre provoca algum riso, o que ajuda a descontrair.
O que ajustamos depois de cada sessão
No fim da aula, escrevo à mão três notas: o que correu bem, o que confundiu e o que quero mudar na semana seguinte. Se um tema gerou demasiada tensão, retiro-o. Se um par ficou sem assunto ao minuto dois, aumento o número de perguntas de apoio no cartão.
Este trabalho de bastidores não aparece na sala, mas é o que torna o exercício previsível e seguro. Quem entra no programa sem experiência não precisa de saber nada disto. Basta chegar, sentar-se, ouvir com atenção e deixar que o desenho da aula faça o resto, ao ritmo de cada um.
Um exercício de escuta em pares parece simples visto de fora, mas assenta em escolhas pequenas: um tema leve, pares que mudam, regras repetidas e uma pergunta de cada vez. Nestas semanas de outono, quem quiser experimentar em casa pode pedir a um familiar três minutos de atenção e devolver-lhe um resumo antes de dar a sua opinião.
Envie-nos uma mensagem
E-mail: [email protected]