journovibeky Contacto
← Artigos
Erros de raciocínio

Cinco erros de raciocínio comuns e como os evitar

Cinco enganos que cometemos sem dar por isso ao discutir ou ao ler notícias, com exemplos do quotidiano e pequenas perguntas que ajudam a travá-los a tempo.

Helena Sampaio

5 minutos de leitura

Cinco erros de raciocínio comuns e como os evitar

O primeiro erro é o mais frequente em conversas de família: quando alguém apresenta uma opinião de que não gostamos, respondemos com uma crítica à pessoa. «Isso diz quem nunca saiu da terra» ou «Está a falar assim porque é reformado» são frases que desviam a atenção do que realmente foi dito. A ideia fica intacta e a conversa azeda.

Nas aulas, pedimos aos participantes que reformulem a afirmação do outro numa frase neutra antes de responderem. Se não conseguirem separar a ideia de quem a disse, ainda não estão preparados para a contestar. Esta pausa, que demora poucos segundos, costuma mudar o tom de toda a troca.

Para evitar este erro, pergunte a si mesmo: se outra pessoa dissesse exatamente o mesmo, a minha resposta seria igual? Se não for, está a reagir ao autor e não ao argumento. Vale a pena recomeçar pela razão apresentada.

  • Reformule a ideia do outro antes de responder
  • Troque «você diz isso porque…» por «o que me parece fraco é…»

2. Reduzir tudo a duas opções

Ouvimos muitas vezes que ou se está de acordo ou se é contra, que ou se confia em tudo ou em nada. Chama-se falso dilema e funciona porque simplifica. Numa reunião de associação, por exemplo, alguém diz «ou aprovamos esta obra agora ou o edifício degrada-se», como se não existisse uma terceira via, como adiar a decisão para pedir mais orçamentos.

Este recurso aparece também na publicidade: «ou compra hoje ou perde a oportunidade». O objetivo é impedir que pare para pensar. Quando só lhe mostram duas portas, vale a pena procurar a janela.

Um bom exercício é, perante qualquer «ou isto ou aquilo», escrever pelo menos duas alternativas que ninguém mencionou. Muitas vezes a melhor solução está precisamente aí, naquilo que a discussão deixou de fora.

  • Pergunte: existe uma terceira possibilidade?
  • Desconfie de frases com «ou» e sem meio-termo

«Conheço um senhor que fez essa dieta e ficou pior, portanto não funciona.» A generalização apressada parte de um exemplo, por vezes de dois, e tira daí uma regra para toda a gente. É humano: as histórias que ouvimos de perto pesam mais do que os números que não vemos.

Um caso pode ilustrar uma ideia, mas não a prova. Para a sustentar, é preciso saber quantos casos existem, em que condições e se são comparáveis. Em conversas de café, bastará perguntar com simplicidade: será que isto acontece com muita gente ou só neste caso?

Também convém aplicar o mesmo cuidado às nossas próprias experiências. O que nos aconteceu é verdadeiro para nós, mas pode não representar o que acontece aos outros. Reconhecer essa diferença não enfraquece o argumento; torna-o mais honesto e mais difícil de desmontar.

  • Distinga «um exemplo» de «uma prova»
  • Pergunte quantos casos existem e se são comparáveis

4. Confundir sequência com causa

Se duas coisas aconteceram uma a seguir à outra, é tentador achar que a primeira causou a segunda. «Mudaram o horário dos autocarros e logo a seguir o comércio local piorou.» Pode haver relação, mas também podem ter existido outros fatores, como obras, a época do ano ou o fecho de uma fábrica próxima.

Nas notícias isto aparece em títulos que ligam acontecimentos sem demonstrar a ligação. Na publicidade, é comum atribuir a um produto uma melhoria que teria acontecido de qualquer forma. A pergunta útil é: o que mais mudou nesse período?

Quando discutir, experimente listar três explicações possíveis para o mesmo facto antes de escolher uma. Não precisa de ter a resposta final; basta mostrar que a causa apontada não é a única candidata. Essa humildade costuma ser bem recebida por quem ouve.

  • Procure outras explicações para o mesmo facto
  • Desconfie de «depois disto, por isso por causa disto»

5. Apoiar-se na autoridade ou na maioria

Dizer «toda a gente sabe» ou «um especialista afirmou» é cómodo, mas não substitui as razões. A maioria pode estar enganada e quem tem experiência numa área pode falar de outra sem o mesmo conhecimento. O que interessa é saber em que se baseia a afirmação.

Isto não significa desconfiar de tudo. Significa pedir, com educação, o fundamento: de onde vem esta informação, quem a verificou, o que a sustenta? Numa conversa serena, esta pergunta não ofende; mostra interesse.

Em aula, treinamos também o caminho inverso. Quando for a si a apoiar-se numa opinião alheia, tente acrescentar uma razão sua. Um argumento que se sustenta sozinho convence mais do que uma lista de nomes e de opiniões repetidas por muitos.

  • Pergunte em que se baseia a afirmação
  • Acrescente sempre uma razão própria ao citar outra pessoa

Um pequeno hábito para estas semanas de outono

Com o regresso das reuniões, das conversas à mesa e das notícias em maior volume, é um bom momento para criar um hábito simples. Escolha uma afirmação por dia, numa conversa, numa notícia ou num anúncio, e identifique qual destes cinco erros poderia estar presente. Não precisa de anotar nada de complicado: uma linha num caderno chega.

Ao fim de poucas semanas, vai reparar que passa a ouvir de outra maneira. Não se trata de apanhar os outros em falta, mas de afinar o seu próprio juízo e de responder com mais calma.

Se alguma vez se apanhar a cometer um destes erros, não se censure. Reconheça-o, corrija o passo seguinte e continue. É assim que se aprende a debater com serenidade.

Os erros de raciocínio não são defeitos de pessoas pouco inteligentes: acontecem a todos, sobretudo quando estamos cansados, emocionados ou com pressa. Reconhecê-los em nós é o primeiro passo para os travar nos outros com respeito. Comece por um só, aquele que lhe parecer mais familiar, e observe-o durante uma semana. Pequenas perguntas, feitas com calma, valem mais do que grandes discursos e tornam qualquer conversa mais clara e mais justa.

Envie-nos uma mensagem

E-mail: [email protected]